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Principais desafios para o desenvolvimento de Cabo Verde

Cabo Verde: os desafios estruturais de uma pequena economia insular


Cabo Verde é, há décadas, um dos casos de maior sucesso político e social de África: uma democracia estável, com bons indicadores de desenvolvimento humano e um crescimento económico que, em 2024, voltou a superar os 7%. Mas por trás desse desempenho persistem fragilidades estruturais profundas, próprias de um pequeno arquipélago sem recursos naturais e dependente do exterior. Compreendê-las é essencial para perceber tanto os riscos como o caminho que o país tem pela frente.

Uma economia dependente do exterior

A maior vulnerabilidade de Cabo Verde é a sua dependência das importações. O país importa cerca de 80% dos alimentos que consome e quase toda a energia, já que não dispõe de combustíveis fósseis próprios — aproximadamente 80% da eletricidade ainda é gerada a partir de derivados de petróleo importados. Setores como a saúde, a indústria e a construção assentam, em larga medida, em bens vindos de fora.

Esta estrutura tem um preço: sempre que sobem os preços internacionais da energia, dos alimentos ou dos transportes, Cabo Verde sente o impacto de forma imediata, com reflexos no custo de vida das famílias. A guerra na Ucrânia e a inflação global dos últimos anos foram um exemplo claro dessa exposição.

Daí resulta também um pesado défice na balança comercial de bens, que o país compensa com a exportação de serviços. É importante, porém, não confundir os dois: apesar do défice de bens, a balança corrente registou em 2024 um excedente de 3,7% do PIB — o primeiro em quatro anos — graças à força do turismo e às remessas da diáspora.


Concentrada em poucos setores

O reverso desse equilíbrio é a concentração. O turismo representa cerca de 25% do PIB e as remessas dos emigrantes rondam os 12% — dois pilares que sustentam a economia, mas que também a tornam cíclica e sensível a choques externos. A pandemia de 2020, que praticamente parou o turismo mundial, mostrou de forma dramática o que acontece quando um desses pilares falha.

A pouca diversificação das exportações, muito centradas no turismo e nas pescas, mantém o país numa posição de fragilidade estrutural e de necessidade recorrente de financiamento externo. Diversificar a economia — apostando, por exemplo, na economia azul, nos serviços e na economia digital — é, por isso, uma das grandes prioridades nacionais.


Recursos naturais escassos

A base produtiva interna é limitada por condições naturais adversas. A água doce é o constrangimento mais crítico: a precipitação média ronda os 230 mm por ano, muito irregular entre ilhas, e os aquíferos são frágeis e por vezes salinizados. Como consequência, o país depende fortemente da dessalinização da água do mar — um processo eficaz, mas caro e muito intensivo em energia, o que volta a ligar o custo da água ao preço dos combustíveis.

O solo agrava o quadro. Apenas cerca de 10% do território é arável, e mesmo essa fração sofre com a erosão hídrica intensa nas encostas e com a desertificação nas ilhas mais planas e arenosas, como o Sal, a Boa Vista e o Maio. A produção agrícola local cobre apenas uma pequena parte da procura alimentar, o que realimenta o ciclo da dependência das importações e pressiona os preços no consumidor.


Vulnerabilidade climática

Enquanto Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento, Cabo Verde está entre os países mais expostos às alterações climáticas, apesar de quase não contribuir para as emissões globais. As secas, frequentes e prolongadas — como a que afetou o país entre 2017 e 2021 —, comprometem a agricultura e a segurança hídrica. A erosão costeira ameaça terras férteis e infraestruturas, e as projeções apontam para uma redução da precipitação e uma subida do nível do mar que penalizarão sobretudo as ilhas mais baixas e turísticas. Estes fatores tendem a aumentar a pressão social e a alimentar tanto a migração interna como a emigração.


Desafios sociais e regionais

No plano social, os números recentes contam, ao contrário do que se poderia pensar, uma história de melhoria. A taxa de desemprego caiu para 8% em 2024 — o valor mais baixo desde a independência — e desceu ainda para 7,5% no primeiro semestre de 2025. Persistem, contudo, problemas de fundo: o desemprego jovem mantém-se elevado, à volta dos 20%, e cerca de 47% dos trabalhadores estão na informalidade, sem proteção social adequada. A pobreza, embora em queda acentuada (o Banco Mundial estima que tenha baixado para cerca de 14% em 2024), continua a ser uma realidade significativa, sobretudo nas zonas rurais e nas ilhas periféricas.

A geografia acentua as desigualdades. Santiago e São Vicente concentram a grande maioria da população, enquanto as ilhas turísticas registam um rendimento por habitante bastante superior ao das zonas mais agrárias. Esta concentração gera sobrecarga urbana de um lado e despovoamento e envelhecimento do outro. Como a população é jovem — a maioria tem menos de 35 anos —, o mercado de trabalho enfrenta uma pressão constante para gerar oportunidades, sob risco de frustração social e de nova emigração.


Finanças públicas e conectividade

A dívida pública, que disparou durante a pandemia, continua elevada, mas em trajetória descendente: situou-se em cerca de 110% do PIB em 2024, depois de anos próximos dos 140%, e prevê-se que continue a cair. Ainda assim, os elevados custos do serviço da dívida e os riscos associados às empresas públicas limitam a margem para investimento e para políticas sociais.

A tudo isto soma-se o desafio permanente da insularidade: o transporte entre ilhas é caro e nem sempre eficiente, e a concentração de serviços, portos e aeroportos em poucos pontos encarece a logística e isola as ilhas mais pequenas, reduzindo a sua competitividade.


Um equilíbrio entre fragilidade e resiliência

O retrato de Cabo Verde é, no fundo, o de um país que faz muito com pouco. As suas vulnerabilidades — dependência externa, recursos escassos, exposição climática e desigualdades regionais — são reais e estruturais. Mas os progressos recentes, do recuo do desemprego à redução da dívida e ao regresso do excedente externo, mostram que essas fragilidades não são um destino. Com diversificação económica, transição energética e políticas inclusivas, o arquipélago continua a transformar limitações em oportunidades — tal como tem feito ao longo de toda a sua história.